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Teologia experimental
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Jejum e abstinência na Quaresma
17/02/2026
O que é o jejum/abstinência na Quaresma?
Uma prática religiosa, tanto no sentido de penitência (porque somos pecadores) quanto de participação no sofrimento de Cristo na cruz (porque estamos crucificados com Cristo). Como a cruz não tem sentido sem a Ressurreição, ou seja, não é um sofrimento em vão, apenas sofrer por sofrer, as renúncias desta penitência precisam incluir algum benefício para o mundo, mais ou menos como a Paixão de Cristo serviu para a nossa redenção.
Não é como se o resto do ano fosse de paz e tranquilidade pra compensar isso com passar algum perrengue na Quaresma. Todos os sofrimentos, dos menores aos maiores, podem ser oferecidos a Cristo1) (e vividos com ele) todos os dias, mas eles geralmente são em função de outra coisa, como a penitência que é ter que correr pra não perder o ônibus: dá para oferecer esse sofrimento a Cristo, mas a intenção é pegar o ônibus, e não fazer penitência.
O período da Quaresma está mais para uma penitência voluntária só por Cristo, sem ganhar nada com isso, mas mais ou menos como atender ao pedido de Jesus “ ficai aqui em vigília comigo”2), não no horto e sim na cruz, no caso, o que é diferente de abrir mão de alguma coisa por necessidade3).
O que não é o jejum/abstinência na Quaresma?
- Não é nada do que aparece no incrível mundo do magistério paralelo: quem decide do que se abster é quem vai fazer a penitência, e ela não é um teste de resistência nem tem outras regras além das que a Igreja definiu4).
- Não é sadomasoquismo.
Apesar de certos entendimentos e argumentações que existem por aí, se a prática religiosa vira esse tipo de coisa, deixa de se religião e quase sempre vira exploração.
Foto de Annika Gordon na Unsplash
Falsos dilemas cristãos
13/02/2026
Acorda, ó homem; toma consciência da dignidade de tua natureza. Recorda-te de teres sido feito à imagem de Deus que, embora corrompida em Adão, foi recriada em Cristo. Portanto, usa de modo justo das criaturas visíveis, como gozas da terra, do mar, do céu, do ar, das fontes, dos rios e tudo quanto neles achas de belo e de admirável. Por tudo dá louvor e glória ao Criador! ( s. Leão Magno)
O cristianismo caricaturizado costuma fazer muito barilho quando se trata de aborto, bioética, teoria queer, guerra cultural, “conquista de almas” e coisas deste tipo, lá na sua essência o cristianismo tem mais a ver com a defesa do meio ambiente, da ocupação dos espaços de maneira justa, da distribuição de renda, justiça social, etc, enfim, tudo o que cabe em “usar de modo justo das criaturas visíveis” como escreveu Leão Magno.
Não é que a bioética e as pautas dos costumes devam ser ignoradas, mas se fosse por critérios - verdadeiramente - cristãos, brigar pela definição do que é ou não é uma família6), por exemplo, deveria vir muito depois de acabar com o garimpo na Amazônia, com a escala 6×1 ou diminuir drasticamente o déficit habitacional no país.
«Aquilo que se vê é temporário, como diz o Apóstolo, quanto ao que não se vê, é eterno» (idem), mas seja o que for que seja (para ficar no exemplo) uma fmaília, ela precisa de um ambiente saudável, um lugar para morar, empregos dignos e esse tipo de coisas que passam longe daquilo pelo qual o cristianismo de rede social se interessa hoje em dia. É necessário seguir Jesus em meio a qualquer adversidade em todo o caso, mas com menos adversidades como essas, na maioria das vezes causadas pela ganância, o enfrentamento delas não precisa disputar tanta atenção com o seguimento de Cristo.
A imagem é de Jane Boyd & ECE Workshops na Unsplash
Como é o verdadeiro jejum
10/02/2026
Copiado e traduzido de Cuál es el verdadero ayuno 7), uma das reflexões na capela Santa Marta de 16 de fevereiro de 2018:
Quaresma: um tempo privilegiado para penitência e jejum, mas que tipo de penitência e jejum o Senhor espera de nós? O risco, na verdade, é “mascarar” uma prática virtuosa, ser “inconsistente”. E não se trata apenas de “escolhas alimentares”, mas de estilos de vida pelos quais devemos ter a “humildade” e a “consistência” de reconhecer e corrigir nossos próprios pecados. Essa é, em essência, a reflexão que o Papa ofereceu aos fiéis no início da Quaresma, durante a missa celebrada em Santa Marta na manhã de sexta-feira, 16 de fevereiro [de 2018].
A palavra-chave da meditação, sugerida pela liturgia do dia, foi “jejum”: “Jejum diante de Deus, jejum que é adoração, jejum com seriedade”, porque “o jejum é uma das tarefas a serem feitas durante a Quaresma”. Mas não no sentido de alguém que diz: “eu como só refeições quaresmais”. De fato, comentou Francisco, “essas refeições formam um banquete! Não se trata de mudar o que come ou de preparar o peixe dessa ou daquela forma para torná-lo mais saboroso”. Caso contrário, tudo o que se faz é “continuar o carnaval”. Ele enfatizou que é a palavra de Deus que nos adverte a “fazer com que nosso jejum seja genuíno. Verdadeiramente genuíno.” E acrescentou: “Se você não puder fazer um jejum total, daquele tipo que faz você sentir fome até os ossos”, ao menos “faça um jejum humilde, mas verdadeiro.”
A respeito disso, na primeira leitura (Isaías 58:1-9), “o profeta destaca muitas incoerências na prática da virtude”, e precisamente, “esta é uma delas”. A lista de Isaías é detalhada: “Dizeis que me procurais, falais comigo. Mas não é verdade”, e “No dia do vosso jejum, cuidais dos vossos próprios negócios”: isto é, enquanto “o jejum é um despojamento”, preocupamo-nos em “ganhar dinheiro”. E ainda: “Explorais todos os vossos trabalhadores”: isto é, explicou o Papa, enquanto dizemos: “Agradeço-te, Senhor, porque posso jejuar”, desprezamos os trabalhadores que, sobretudo, “devem jejuar porque não têm o que comer”. A acusação do profeta é direta: “Eis que jejuais apenas para litigar e brigar, e para ferir as mãos dos malfeitores”.
É um duplo padrão inaceitável. O Papa explicou: “Se queres fazer penitência, faze-a em paz. Mas não podes, por um lado, falar com Deus e, por outro, falar com o diabo, convidando ambos ao jejum; isto é incoerente”. E, seguindo sempre as indicações das Escrituras — “Não jejueis mais como hoje, para fazer ouvir a tua voz no alto” — Francisco advertiu contra o exibicionismo incoerente. E contra o comportamento daqueles que, por exemplo, dizem sempre: “Somos católicos, praticamos; pertenço a esta associação, jejuamos sempre, fazemos penitência”. A eles, idealmente, perguntou: “Mas jejuais com coerência, ou fazeis penitência incoerentemente, como diz o Senhor, com alarde, para que todos vejam e digam: ‘Que pessoa justa, que homem justo, que mulher justa?’”. Isto, na verdade, “é um truque; é maquiar-se de virtude. É maquiar-se de mandamento”. E acrescentou que é uma “tentação” que todos nós já sentimos em algum momento, “de fingir em vez de levar a sério a virtude, aquilo que o Senhor nos pede”. Pelo contrário, o Senhor “aconselha os penitentes, aqueles que se abstém de maquiar-se, mas com seriedade: ‘Jejuem, mas usem maquiagem para esconder que vocês estão fazendo penitência. Sorriam, sejam felizes.’ Diante de tantos que ‘têm fome e não podem sorrir’, esta é a sugestão para o crente: ‘Busque a fome para ajudar os outros, mas sempre com um sorriso, porque vocês são filhos de Deus e o Senhor os ama muito e lhes revelou essas coisas. Mas sem incoerências.’
Neste ponto, a reflexão do Papa aprofundou-se ainda mais, motivada pela pergunta: ‘Que tipo de jejum o Senhor quer?’ A resposta também vem das Escrituras, onde lemos primeiro: ‘Inclinar a cabeça como uma cana.’ Ou seja: humilhar-se. E a quem pergunta: ‘O que devo fazer para me humilhar?’, o Papa responde: ‘Mas pense nos seus pecados. Cada um de nós tem muitos.’ E ‘envergonhe-se’, porque mesmo que o mundo não os conheça, Deus os conhece bem.” Portanto, este é o jejum que o Senhor deseja: verdade e coerência.
E tem mais: “desfazer as amarras da maldade” e “desfazer os grilhões do jugo”. O exame de consciência, neste caso, centra-se no objetivo da nossa relação com os outros. Para melhor se fazer entender, o Papa deu um exemplo muito prático: “Penso em muitas trabalhadoras domésticas que ganham o pão com o seu trabalho” e que muitas vezes são “humilhadas e desprezadas”. Aqui, a sua reflexão abriu espaço para uma recordação pessoal: “Nunca consegui esquecer uma vez, quando fui à casa de um amigo, ainda criança. Vi a mãe bater na empregada doméstica. 81 anos… Nunca me esqueci disso”. Disso decorre uma série de perguntas, idealmente dirigidas a quem emprega pessoas: “Como as tratas? Como pessoas ou como escravas? Pagas-lhes o que é justo, dão-lhes férias? É uma pessoa ou um animal que vos ajuda em casa?” Um apelo à coerência que se aplica também às pessoas religiosas: “Em nossas casas, em nossas instituições: como me relaciono com o empregado que tenho em casa, com os empregados que trabalham em minha casa?” Aqui, o Papa acrescentou outra experiência pessoal, recordando um senhor “muito culto” que “explorava sua empregada doméstica” e que, quando lhe foi apontado que isso era um “pecado grave” contra pessoas “feitas à imagem de Deus”, objetou: “Não, Padre, tem que diferenciar: essas pessoas são inferiores”.
Por isso é necessário “desfazer os grilhões do jugo, soltar as cordas do mal, libertar os oprimidos, romper todo jugo”. E, comentando o profeta que adverte: “Reparti o teu pão com o faminto, acolhe em tua casa os pobres e os sem-teto”, o Papa contextualizou: “Hoje debatemos se devemos ou não dar abrigo àqueles que vêm pedir…”. E as instruções continuam: “Vista os nus”, mas “sem negligenciar a sua própria família”. Este é o verdadeiro jejum, aquele que envolve a vida diária. “Devemos fazer penitência, devemos sentir um pouco de fome, devemos rezar mais”, disse Francisco; mas se “fizermos muita penitência” e não vivermos o jejum desta forma, “a semente que brotará disso” será “a semente do orgulho”, a semente daqueles que dizem: “Obrigado, Senhor, porque posso jejuar como um santo”. E isso, acrescentou ele, “é o truque feio”, não o que o próprio Jesus sugere “para que os outros não vejam que estou jejuando” (cf. Mt 6,16-18). A pergunta que devemos nos fazer, concluiu o Papa, é: “Como me comporto com os outros? Meu jejum ajuda os outros?” Porque, se isso não acontece, esse jejum “é fingido, é inconsistente e leva você ao caminho de uma vida dupla”. É necessário, portanto, “pedir humildemente a graça da coerência”.
(As duas imagens são, na ordem em que aparecem, de The Cleveland Museum of Art na Unsplash e de Annie Spratt na Unsplash )
Pecados e penducricalhos
É difícil a mensagem profética alcançar um coração corrupto, tão escudado pela autossuficiência que não aceita questionamento.
04/02/2026
Em 2005, quando era arcebispo de Buenos Aires, o então cardeal Bergoglio reciclou um texto dele mesmo de 1991 para apresentar numa assembleia arquidiocesana, que mais tarde se tornou um pequeno livro chamado Corrupção e Pecado.
Neste texto, ele explica a diferença entre pecado e corrupção, começando por expandir a abrangência da corrupção para além da esfera das autoridades, mas mesmo atingindo também a nós, meros mortais, por tabela, ainda assim é inevitável pensar nas autoridades ao ler o texto do futuro papa.
Uma das piores consequências de se retirar a ideia de pecado do pensamento geral e relegá-la ao âmbito religioso é que a ideia fica nas mãos de um grupo mais ou menos homogêneo de pessoas que usa o pecado para manipular culpas, associando ele quase que exclusivamente coisas sexuais, e mais ainda, a coisas privadas e particulares.
Apesar disto, existe o pecado social, em cuja raiz estão males como a fome, o desemprego, etc, inclusive a corrupção, que é do que se trata o texto do livro, que no entanto não trata a corrupção como um pecado nem social, nem pessoal.
A ideia toda do livro (na verdade, um artigo) é que o pecador se reconhece como um pecador, e reconhece o pecado quando peca, o que lhe permite ver, ao menos no horizonte, a misericórdia de Deus.
O corrupto não vê o mal que faz como uma corrupção. Entre outras coisas, o corrupto reelabora sua maldade para que ela se torne “socialmente aceitável (p. 22), embora isso não faça com deixe de ter um “cheiro de podre” (p. 18):
«Ocorre como com o mau hálito: dificilmente aquele que tem mau hálito o percebe. Os outros é que o sentem e têm que lhe dizer. (p. 19)»
Embora a misericórdia divina seja suficentemente ampla para alcançar também o corrupto, ele não consegue vê-la no seu horizonte, afinal ele está firmemente apegado à aparência de que está tudo ok. Pra ele, não tem nada ali que precise ser perdoado.
Um dos melhores exemplos disso pra mim é o presidente do TJSP dizendo que vai manter os penduricalhos (que ele chama por um nome mais suave) porque ” Nada é pago, nenhum centavo é pago, sem que haja, ou lei, ou decisão do Supremo, ou autorização normativa do Conselho Nacional. Nenhum centavo é pago além disso“, o que pra mim é um jeito muito elegante de tornar a corrupção socialmente aceitável, e mais do que isso, legalizada.
Essa ideia também vale pra resistência do STF em aceitar um código de ética, e por mais males que essas corrupções legalizadas tragam, talvez o pior seja que a maioria das pessoas vai normalizando a corrupção, ou, nas palavras do então futuro papa Francisco:
«Fomos nos acostumando mais à palavra [corrupção]… e aos fatos, como se fizessem parte da vida coditidana. (p. 8)»
Observações
A ideia do livro é justamente mostrar que a corrupção vai além da corrupção praticada pelas autoridades e pode atingir a todos nós, pois é uma consequência do pecado, apesar de ele ser falsamente deslocado da condição de pecado para uma condição de “coisas da vida” (um dos exemplos que o texto dá é de uma rica senhora que teve a bolsa roubada e reclama do aumento da criminalidade sem se incomodar com a prática do marido de despedir empregados antes de completar os três meses de experiência pra não precisar pagar os impostos sobre os empregados), mas me pareceu caber muito bem no caso dos penduricalhos e da resistência do STF ao código de ética pra eles.
O subtítulo é o início do parágrafo que começ na p. 9, mas reescrito.
O livro é da editora Ave-Maria, mas é de 2013, e não a de 2022 que está no link.
Curso de masculinidade cristã
02/02/2026
Módulo 1
Isaías, 53
1 Quem acreditou em nossa mensagem? Para quem foi mostrado o braço de Javé?
2 Ele cresceu como broto na presença de Javé, como raiz em terra seca. Ele não tinha aparência nem beleza para atrair o nosso olhar, nem simpatia para que pudéssemos apreciá-lo.
3 Desprezado e rejeitado pelos homens, homem do sofrimento e experimentado na dor; como indivíduo de quem a gente esconde o rosto, ele era desprezado e nem tomamos conhecimento dele.
4 Todavia, eram as nossas doenças que ele carregava, eram as nossas dores que ele levava em suas costas. E nós achávamos que ele era um homem castigado, um homem ferido por Deus e humilhado.
5 Mas ele estava sendo transpassado por causa de nossas revoltas, esmagado por nossos crimes. Caiu sobre ele o castigo que nos deixaria quites; e por suas feridas é que veio a cura para nós.
6 Todos nós estávamos perdidos como ovelhas, cada qual se desviava pelo seu próprio caminho, e Javé fez cair sobre ele os crimes de todos nós.
7 Foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; tal como cordeiro, ele foi levado para o matadouro; como ovelha muda diante do tosquiador, ele não abriu a boca.
8 Foi preso, julgado injustamente; e quem se preocupou com a vida dele? Pois foi cortado da terra dos vivos e ferido de morte por causa da revolta do meu povo.
9 A sepultura dele foi colocada junto com a dos injustos, e seu túmulo junto com o dos ricos, embora nunca tivesse cometido injustiça e nunca a mentira estivesse em sua boca.
10 No entanto, Javé queria esmagá-lo com o sofrimento: se ele entrega a sua vida em reparação pelos pecados, então conhecerá os seus descendentes, prolongará a sua existência e, por meio dele, o projeto de Javé triunfará.
11 Pelas amarguras suportadas, ele verá a luz e ficará saciado. Pelo seu conhecimento, o meu servo justo devolverá a muitos a verdadeira justiça, pois carregou o crime deles.
12 Por isso eu lhe darei multidões como propriedade, e com os poderosos repartirá o despojo: porque entregou seu pescoço à morte e foi contado entre os pecadores, ele carregou os pecados de muitos e intercedeu pelos pecadores.
Baseado em Efésios, 5
Inválido em caso de imposição ou exigência por autoridades civis, religiosas ou militares, oficiais ou não.
Inválido em caso de imposição ou exigência por qualquer outra autoridade humana também.
Inválido em caso de imposição ou exigência por qualquer outra pessoa humana, inclusive sem autoridade nenhuma.
Inválido em caso de imposição ou exigência em troca de alguma vantagem material, espiritual, social, psicológica ou qualquer outra vantagem.
Inválido em caso de expectativa de levar alguma vntagem com isso.
Inválido em casos de terapia em dia (exceto para terapias baseadas em pseudo-ciência).
Versículos 4, 5, 6, 9, 10, 11 e 12: válidos somente para Jesus.
O raio que o parta!
26/01/2026
Dizer que pimenta no olho dos outros é refresco não se encaixa bem no que eu quero dizer aqui, se bem que se encaixa bem no espírito de deboche do raio que caiu nos manifestantes bolso-golpistas em Brasília ontem.
Acontece que o raio acendeu a verve religiosa do lado de cá, mas em uma de suas piores versões, ainda que seja uma das versões mais difundidas de qualquer religião: o pensamento religioso mágico.
Por um lado é verdade que Deus não só acompanha nossas vidas, individual e coletivamente, como intervém nos acontecimentos (na Igreja Católica isso se chama divina Providência - no número 302 do texto no link, caso não vá direto), mas ela é voltada para o projeto de amor e salvação que Jesus veio anunciar no Evangelho, e não para destruir os inimigos ou servir entretenimento de qualidade.
A ideia contrária, de que Deus anda lançando raios literais ou metafóricos por aí conforme os erros da humanidade, já serviu para atacar o lado de cá, quando a AIDS foi interpretada como castigo divino contra a homossexualidade lá nos anos 80 do século passado, por exemplo.
Isso aparentemente era comum nos tempos da cristandade8), e a autora Karen Armstrong mostra como uma relação incestuosa entre política e religião é danosa tanto do ponto de vista religioso quanto do ponto de vista político ( aqui tem o trecho no qual ela explica isso). Isso é tão ruim quanto a tentativa de isolar completamente as esferas políticas e religiosas.
Se ignorar as pessoas seriamente feridas pela irresponsabilidade do Nicolas Ferreira, que não vai sofrer nenhuma consequência por ter arrastado aquela gente para uma floresta de equipamentos de metal num descampado no meio de uma tempestade, fica difícil não rir. Mas é um riso com o retrogosto amargo da aceitação das palavras do Senhor da Guerra na canção do Legião Urbana, lembre-se sempre que Deus está do lado de quem vai vencer, em vez da aceitação das palavras de Jesus, que vão num sentido bem contrário: que vos ameis uns aos outros ( João 15, 9-17).
Ostentação
18/01/2026
Em um mundo ideal - não no sentido de um ideal a ser realizado um dia, mas no sentido de um parâmetro de comparação - aminoria rica ajudaria a maioria pobre, sem abrir mão do direito a possuir os seus bens nem de atender ao direito dos outros de ter acesso ao que precisam. E talvez tenha, na prática, um ou outro ricaço que faça isso, mas a maioria, não. É mais fácil ver um pobre compartilhando o pouco que tem, às vezes abrindo mão de uma parte desse pouco, do que um rico fazendo isso.
Um dos problemas disto é que esses ricos, esses ricaços, acabam virando um exemplo pros outros, e o que eles tem pra mostrar é a sua riqueza, ou seja, o exemplo que eles dão é a ostentação. Então, aqui ambaixo, o que acaba importando não é ser rico, mas parecer rico. Não que isso seja uma regra, uma característica antropológica da humanidade, dos pobres, da nossa época, etc. Mas é o que faz todo mundo babar pelo Trump apesar da xenofobia e de todo o contexto tóxico do governo dele lá, e é o que faz todo mundo babar pelos riquinhos de terceiro escalão por aqui também.
Não dá pra contar com uma mudança de postura dos ricaços do mundo, nem dá pra pedir para as pessoas melhorarem seus critérios de admiração (até dá pra pedir, mas só isso), mas enquanto não melhorarem isso, vamos todos continuarmos reféns deste teatro de ostentação.
(A imagem é do site Ndmais)
Arcebispo filipino pede que a festa do Santo Niño rejeite patrocinadores ligados a jogos de azar
16/01/2026
Cebu (Agência Fides) – A grande festa do Santo Niño, que vai até 18 de janeiro na Arquidiocese de Cebu, não deveria aceitar patrocínios ou doações de entidades ligadas a jogos de azar. Este foi o apelo público feito pelo Arcebispo de Cebu, Alberto Uy, que pediu aos organizadores do solene Sinulog Festival – o grande festival cultural e cívico que acompanha a celebração religiosa – que rejeitem contribuições de estabelecimentos de jogos de azar que veem as grandes multidões como uma mera oportunidade de lucro.
“Meu apelo é simples, mas vem do coração: que o Sinulog continue sendo uma festa que realmente reflita a alegria, a pureza e a luz do Menino Jesus. Podemos honrá-lo não apenas com nossas danças, orações e celebrações, mas também por meio das decisões morais que tomamos na organização deste evento sagrado”,
declarou o Arcebispo Uy. Ele acrescentou que os organizadores do festival devem escolher colaboradores “coerentes com os valores da fé, da família, da cultura e da comunidade”. “Existem muitas instituições, tanto públicas quanto privadas, que podem e querem apoiar a festa sem comprometer seu caráter moral”, enfatizou.
O Bispo Uy lembrou a todos que a festa do Santo Niño é, acima de tudo, uma celebração religiosa e espiritual, e apenas secundariamente um evento cultural e turístico. “A Igreja”, destacou, “incentiva as famílias a abandonar hábitos destrutivos como o jogo”, e, por isto, deseja que “as celebrações sagradas não sejam bancadas por entidades ligadas a esse tipo de prática”. E acrescentou que os estabelecimentos de jogos de azar “são ambientes que podem levar ao vício, à desestruturação familiar, a perdas financeiras e à confusão moral”.
Sempre no terceiro domingo de janeiro a cidade de Cebu, nas Filipinas, é tomada por uma grande festa popular. O Festival Sinulog surgiu como uma homenagem ao Menino Jesus e, ao longo dos anos, tornou-se uma das principais atrações turísticas anuais de todo o arquipélago.
O propósito original do festival é comemorar a chegada do cristianismo às Filipinas, pois foi nessa região que a primeira missa em território filipino foi celebrada. No centro da celebração está a oração: a novena preparatória é realizada todos os dias às cinco da manhã, atraindo milhares de fiéis. O festival culmina em 17 de janeiro com a solene procissão da imagem do Santo Niño — a estátua cristã mais antiga das Filipinas — e em 18 de janeiro com a Eucaristia na Basílica Menor do Santo Niño.
Nesse mesmo dia acontece um grande desfile que pode durar entre nove e doze horas, com danças tradicionais, trajes coloridos, carros alegóricos e música ao vivo. O Sinulog, que em 2026 gira em torno do tema “Unidos na Fé e no amor”, pretende ser uma celebração da fé, da história e da cultura. O ritual das danças tradicionais simboliza a transição do povo filipino de suas raízes pagãs para o cristianismo. As ruas se enchem de espectadores e artistas.
O festival começa com uma sugestiva procissão fluvial ao longo do Canal de Mactan: um barco decorado com a imagem do Santo Niño navega, acompanhado por uma flotilha de barcos menores repletos de devotos que oram por bênçãos e prosperidade. Em seguida, acontece o desfile da “Rainha do Festival”, que representa a Rainha Juana, a primeira rainha cristã de Cebu, que foi quem recebeu a imagem do Santo Niño de Fernão de Magalhães em 1521. O evento também adquiriu um notável peso público e cívico: além das celebrações religiosas, danças e desfiles, o festival abriga uma feira dedicada a pequenas e médias empresas, exibindo produtos e artesanato de Cebu, atraindo visitantes de todo o mundo.
Arquidiocese de Cebu9)
Em um evento popular marcado por shows, festas de rua e apresentações, a prática do jogo também está presente, um grave problema social nas Filipinas. Segundo dados oficiais publicados em 2025 pela Philippine Amusement and Gaming Corporation (Pagcor), cerca de 32 milhões de filipinos — aproximadamente metade dos 60 milhões de adultos do país — jogam regularmente. O governo registrou um aumento de quase 200% em comparação com os 8,2 milhões de jogadores registrados no ano anterior, impulsionado principalmente pelos jogos de azar online.
Bispos, comunidades católicas e associações têm denunciado repetidamente os efeitos devastadores do jogo e lançado iniciativas e programas de reabilitação para combater essa forma de vício.
(PA) (Fides News Agency 13/01/2026)
Não há destino
09/01/2026
A frase que Sarah Connor escreve no tampo de madeira de uma mesa com uma faca, ”não há destino“, é uma perspectiva assustadora e libertadora. Ao mesmo tempo que Deus está de olho em tudo, incluindo os dois pardais que só valem uns trocados10), não é ele que está decidindo pelas pessoas o que elas fazem, nem causando os acontecimentos11).
Se tem alguma coisa determinada por Deus é que nossa adesão a ele é livre, se bem que “livre” não significa “tanto faz” em todo caso, e sim por vontade própria12).
“Não há destino” assusta quando parece mais fácil alguém tomando as decisões por nós (e na verdade não é nem mais fácil, nem mais difícil decidir-se ou deixar decidirem: o problema é bem outro), mas mesmo que dê um frio na barriga, é uma perspectiva melhor do que a sua alternativa.
Celam lança versão popular da Rerum Novarum, a primeira encíclica que marcou a história social da Igreja
03/01/2026
Rerum novarum, o texto fundacional da doutrina social da Igreja, publicada há 135 anos pelo papa Leão XIII, tem uma versão popular para “atualizar” seu conteúdo à luz das atuais realidades da América Latina.
O conselho Episcopal Latinoamericano e Caribenho (CELAM), através do Centro de gestão do Conhecimento, publica esta primeira encíclica social da Igreja com uma linguagem ao alcance de todos.
De fato, explica o monsenhor Lizardo Estrada, secretário geral do CELAM, este guia “não pretende repetir um antigo documento, mas sim atualizá-lo a partir das realidades da América Latina e do Caribe, oferecendo uma linguagem mais próxima e comunitária que nos permita voltar às fontes sem ficar no passado”.
O bispo assegurou que esta encíclica marcou um ponto de inflexão na reflexão cristã sobre a justiça, o trabalho, a economia e a dignidade humana, porque “seu ensinamento abriu um caminho que ainda hoje ilumina nossas buscas como povos de fé e comunidades que caminham juntas”.
Vigência plena
Monhenhor Estrada assegura que desde aquela época [século 19] nada mudou quanto às relações de poder e exploração, e agora novas tecnologias, novas formas de trabalho e novas pobrezas surgem como exploradoras.
Apesar da antiguidade, as intuições da Rerum novarum “mantém uma força surpreendente. Sua denúncia da desigualdade, sua defesa dos trabalhadores e seu chamado a reconhecer a dimensão social da propriedade seguem nos interpelando”.
A isto se acrescenta a novidade significativa de Leão XIV ao publicas sua primeira exortação apostólica, Dilexi Te (Eu te amei), sublinhando que “as verdadeiras coisas novas de cada época são vsempre o clamor dos pobres, a dignidade de quem trabalha, a defesa da vida em sua totalidade e o cuidado da casa comum”.
Ambos textos tem muita afinidade, e por causa disso mostram a continuidade do magistério social e “sua capacidade para acompanhar as grandes mudanças da história sem perder sua raiz evangélica”.
Ele também explicou que esta versão popular correlaciona respeitosa e fecundamente os dois documentos: o de Leão XIII, de 1891, e o de Leão XIV, de hoje, marcados pela mesma paixão pela justiça.
Você pode baixar o PDF da versão popular da Rerum novarum em espanhol no link https://bit.ly/3N1EpIJ
(Texto copiado e traduzido por minha conta e risco do original no ADN CELAM, e o link direto pro PDF é https://adn.celam.org/wp-content/uploads/2026/01/Las-cosas-nuevas-de-ayer-y-de-hoy_Final.pdf)
Abaixo-assinado
17/12/2025
[…] O Concílio Vaticano II ensina que a liberdade humana deve ser respeitada e salvaguardada e que só deve ser restringida na medida em que o bem comum o exige. […] A censura, portanto, só deve ser usada em casos muito extremos. 13)
O Concílio Vaticano II tem um decreto chamado Inter Mirífica, que por si só é bem genérico, vago e chato, mas que dentro do contexto do pensamento comunicacional na Igreja até então (1966), foi uma virada de Copérnico (ou pelo menos o início dela) na relação da Igreja com as comunicações sociais. Este descreto, que além das características acima também é bem curto (provavelmente porque foi alvo da pressão de jornalistas e de sabe-se lá quem mais, tanto é que, se não me engano, foi o documento do Vaticano II aprovado com a votação mais apertada), e lá no final solicita que a Igreja complemente e aprofunde o assunto em uma então futura instrução pastoral, que é a Communio et Progressio citada aí em cima.
Esse trecho do documento é sobre o que a Igreja pensa sobre o poder de censura do poder civil sobre os cidadãos - mas também vale, ou deveria valer caso não valha, para as questões institucionais da Igreja consigo mesma.
Ultimamente o bem comum tem exigido mais censura do que teria se vivêssemos em uma sociedade um pouco mais saudável que a que temos, com gente usando a sua liberdade de expressão para atacar, dimunuir, incitar os outros ao mal, oprimir, promover o ódio, etc, tudo isso que temos visto nos últimos anos - o mesmo bem comum que anos atrás exigiu, pelo contrário, lutas contra a censura, nem que fosse por meio de letras com duplo sentido («Todo dia eu só penso em poder parar, meio-dia eu só penso em dizer não, depois penso na vida pra levar e me calo com a boca de feijão.»): se é certo e claro que por padrão “a liberdade humana deve ser respeitada e salvaguardada”, também é igualmente certo e claro que «Para cada coisa há seu momento e um tempo para toda atividade debaixo do céu [e entre outros pares de contrários] há um tempo para se calar e um tempo para falar» 14).
Mas é doloroso ler que o arcebispo proibiu o pe. Júlio não só de se comunicar via redes sociais, como também de transmitir pela Internet as missas que ele celebra, pelo menos sem que se saiba o porque disto.
O arcebispo em questão é d. Odilo, cardeal e, até o último conclave, um papabile (assim como era também no conclave que elegeu Francisco). A questão é: qual d. Odilo censurou o padre? Porque tem o d. Odilo que proibiu uma cátedra de Foucault na PUC-SP 15) e depois promoveu a farinata 16), mas também tem o dom Odilo [muitas aspas] “comunista” [muitas aspas] 17) e que manteve pe. Júlio como vigário episcopal do Povo de Rua contra tudo e contra todos nos tempos do governo do inelegível18), mantendo a decisão de d. Evaristo Arns, que delegou esta atividade ao padre. Os “dois” d. Odilos no fim das contas são o mesmo cardeal conservador que todos sabem que é conservador, mas um convervador (pelo menos) não-bolsonarista (mais ou menos como quem diz “vão-se os anéis, ficam os dedos”), mais para Alckmin (versão pré-PSB) e distante de um Malafaia da vida.
Pode ser que ele tenha censurado o pe. Júlio para proteção do próprio padre e, portanto indiretamente, em defesa da própria pastoral da qual ele é o vigário episcopal? Pode ser que ele tenha censurado o pe. Júlio porque o conservadorismo falou mais alto desta vez e ele não pôde resistir? Não se sabe porque ninguém explicou (o padre porque não pode, e o arcebispo, porque não quer - apesar da ínfima possibilidade de que também não possa por pressões tenebrosas, mas acho isso mais difícil), e se é verdade que não dá para acusar o cardeal de nada (nem de estar podando o padre Júlio) nem defender a decisão dele, também é verdade que dá para pedir explicações da decisão. Por isso, a melhor resposta é este abaixo-assinado da Fórum (a revista), até porque tudo «o que tiverdes falado ao pé do ouvido, no interior da casa, vai ser proclamado sobre os telhados» um dia de qualquer jeito mesmo 19)).
Maria de verdade
13/11/2025
Pousasse toda Maria no varal das 22 fadas nuas lourinhas… Fostes besouro Maria, e a aba do Pierrot descosturou na bainha.
Farinhar bem, derramar a canção, revirar trens, louco-mover paixão nas direções. Programado, emoldurado esperarei, romântico.
Sou a pessoa Maria, na água quente, gente boa Maria. Voa quem voa, Maria, e a alma sempre boa, sempre vou à Maria.
Farinhar bem, derramar a canção, revirar trens, louco-mover paixão nas direções. Programado, emoldurado esperarei, romântico.
Tô vitimado no profundo poço, na poça do mundo. Do céu amor vai chover: tua pessoa Maria, mesmo que doa Maria… Tua pessoa Maria, mesmo que doa Maria.
Farinhar bem, derramar a canção, revirar trens, louco-mover paixão nas direções. Programado, emoldurado esperarei, romântico.
Maria de Verdade - Carlinhos Brown (mas eu só consigo ler esta letra ouvindo a voz da Marisa Monte na minha cabeça)
Eu não li a maioria das análises, tanto as favoráveis quanto as desfavoráveis, do documento do Vaticano que desabona a ideia de Maria ser corredentora junto com Cristo, porque é um assunto chato e batido, que não é a primeira vez que aparece, a não ser sob essa roupagem.
Logo nos primórdios da Igreja teve um debate contra os “judaizantes”, judeus convertidos que tentaram condicionar a salvação de Cristo à conservação das práticas judaicas. Ao mesmo tempo e também depois disto, vieram os gnósticos, condicionando a salvação a não sei qual conhecimento (seria um determinado conhecimento?, uma conclusão a que se deveria chegar, numa espécie de heureka espiritual?, um estado místico de iluminação proporcionada pela sabedoria? - sei lá), e também a uma iniciação esotérica.
Também tem a ideia de que é a correção moral que garante a salvação, uma ideia que acho que deve ter perpassado toda a cristandade e sobreviveu a ela, mantendo-se firme até hoje 20), ou então o exibicionismo religioso, etc. A Teologia da Libertação, que é fruto de uma escuta atenta à voz do Espírito Santo (na minha opinião), teve que lidar com um certo ruído nesta comunicação, que consistiu em, às vezes, atribuir a salvação aos pobres, ao invés de atribuí-la a Jesus. A teologia da prosperidade hoje em dia faz praticamente a mesma coisa, mas substituindo (convenientemente) os pobres da Teologia da Libertação - e o verdadeiro salvador, Jesus Cristo 21) - pela prosperidade material.
Além de não ter lido a maioria das análises do documento, também não li o documento em si (está na minha lista de leituras). Mas não é necessário ter lido para imaginar que o problema é o mesmo dos mencionados acima: atribuir a salvação ao que não salva, e não a Jesus. Além disso, no caso da corredentora, ainda por cima é uma tentativa de jogar sobre Maria um peso - da salvação - que ela não tem que carregar, assim como se faz, fora de quaisquer conotações espirituais, com as mulheres (não só) hoje em dia, tentando jogar em cima dela pesos, fardos e responsabilidades que não são delas, ou não são só delas, mas que o machismo acha que cabe a elas só porque são mulheres.
Em vez de mulheres - e de Maria - idealizadas, talvez o principal sentido do boicote do Vaticano à ideia da corredentora seja ver as mulheres - e Maria - de verdade.
Contexto religioso
10/11/2025
Eu (ainda) fico espantado com quem acredita que “estamos todos no mesmo barco” e ideias afins, porque é uma demonstração ou de falta de empatia, de um isolamento em si mesmo (um “si mesmo” que pode ser que inclua sua própria bolha isolada dos outros), ou de maldade mesmo.
E estou pensando nisto depois de ter lido um texto de um comentarista dos grandes jornais responsabilizando, sutil e exclusivamente, as escolhas de um dos mortos na chacina do dia 28/10 (onde morreram culpados e inocentes de envolvimento com o crime organizado, mas no caso desse, em particular, ele estava envolvido).
Não é que as condições nas quais uma pessoa viva justifiquem os seus erros, mas quem vive encurralado em condições de vida injustas tem uma gama muito menor de opções do que quem está em condições melhores (ou menos piores). O contexto não determina, mas faz muita diferença.
Nem mesmo Jesus deixou de levar em conta os contextos das pessoas com quem lidou, nos relatos dos evangelhos: ele não pegou no chicote contra nenhum dos “imorais” que apareceram (como Zaqueu ou a adúltera que queriam apedrejar), nem foi duro com eles, e se foi duro contra a hipocrisia dos fariseus, não foi por questões morais mas, no entanto ele só pegou no chicote contra quem estava profanando o Templo - entre hipocrisias e imoralidades, o zelo de Jesus aparentemente transbordou apenas quando o pecado era quase que exclusivamente religioso (já que ele se se irritou contra os vendedores não por serem comerciantes, mas por estarem negociando no Templo).
Não quero parecer estar defendendo que dê pra usar a Bíblia como uma cartilha de comportamento (como fez o bispo político que prega a união da direita porque Jesus ensinou que todo reino dividido contra si mesmo não fica em pé), mas uma das muitas coisas que se pode aprender com Jesus é que mesmo que o contexto não justifique nem determine nada, ele precisa ser levado em conta.
Lázaro, Jairo e a viúva de Naim
31/10/2025
Se eu não estiver enganado, existem três narrativas de ressurreições feitas por Jesus nos quatro Evangelhos (sem incluir nesta conta a ressurreição do próprio Jesus, depois da sua Paixão): a da filha de Jairo 22), a do filho da viúva de Naim 23) e a de Lázaro 24), que talvez seja a narrativa mais famosa destas três.
Na ressurreição de Lázaro, que eu acho a mais dramática, pode-se ver o sentimento de Jesus pelos que morrem - basicamente, o mesmo que o nosso, a tristeza incomensurável. Eu li alguma vez, já não sei onde, que é nesta narrativa em que está o menor versículo - agora já não lembro se de toda a Bíblia, de todo o Novo Testamento ou só dos quatro Evangelhos: “Jesus chorou” 25), o que aconteceu depois de ter ido ver onde haviam sepultado Lázaro. As lágrimas de Jesus pela morte de Lázaro são as mesmas que ele derrama por cada pessoa que morre, porque Deus não nos criou para morrermos, e sim para vivermos. A morte não foi planejada por Deus, mas depois de ter sido introduzida na humanidade pelo Pecado Original da própria humanidade, Deus “recalculou a rota” para fazer com que a vida vença inclusive a morte.
Isto talvez seja fácil de falar assim, longe de um velório (mas não é). “Tal pessoa está com Jesus no céu” é um consolo para quem tem fé, mas consolar uma dor, especialmente esta, não significa anestesiá-la - tanto é que Jesus chorou pela morte de Lázaro, mesmo sabendo que ia ressuscitá-lo dali a pouco - e também mesmo sabendo que morreria mais adiante para que a sua ressurreição fosse “primícia dos que morreram” 26). E assim como Jesus sofre conosco por quem morreu 27), ele também sofre pelos vivos que ficaram, como se pode ver no caso do filho da viúva de Naim, que Jesus ressuscitou porque sofreu pelo sofrimento da mãe. Quer dizer, também é necessário lembrar que estamos com Jesus cá na terra, e talvez seja necessário lembrar primeiro disto, para que a lembrança de que os mortos estão com Jesus lá no céu (só para repetir: como lembrança da esperança, e não como uma tentativa de anestesia).
A fé na ressurreição, na nossa ressurreição depois que morrermos, pode parecer meio inocente, como se pode ver no caso da ressurreição da filha de Jairo quando as pessoas em volta começam a rir de Jesus ao ouvirem que a menina não está morta. Acho que devem ter pensado que Jesus era inocente (no sentido de uma criança que acredita em coisas fantasiosas, por exemplo) porque não se espera de um adulto que ele seja inocente assim, a ponto de dizer que um morto “apenas está dormindo” 28).
Mas talvez seja esta inocência que o Evangelho de Marcos 10,15 sugere quando Jesus diz que quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele. Quer dizer, não a inocência pela falta de experiência na vida de quem toma o errado pelo certo, mas a confiança simples, como a das crianças, no Reino de Deus, na ressurreição que virá, e em que os nossos mortos “apenas estão dormindo”, mesmo em meio a toda a dor por este “sono” deles, uma dor que tanto é humana (como sabemos pelas nossas próprias dores e pela dor de Jesus nas outras duas narrativas) quanto é divina (que estão nas mesmas duas narrativas).
Lucas 12,54-59
24/10/2025
Jesus começa mostrando que sabemos ver os sinais do que vai acontecer no clima, mas não os sinais do que está acontecendo agora: a nossa redenção. Mas Jesus não pede que interpretemos sinais que dizem, indiretamente, algo que está escondido e precisa ser decifrado, mas sim que sejamos nós mesmos esses sinais, ou nas palavras do versículo 57: «porque também não julgais por vós mesmos o que é justo?», entrando em acordo com nossos adversários, o que só é possível perdoando - e só é possível perdoarmos porque antes de ofercermos o nosso perdão, nós fomos perdoados, mesmo que isto não esteja explícito no texto.
Isto talvez faça mais sentido ao ler o esclarecimento que o papa Francisco fez sobre um ponto impresvindível do perdão e da justiça. Primeiro, que perdoar é diferente de esquecer: «aqueles que perdoam de verdade não esquecem, mas renunciam a deixar-se dominar pela mesma força destruidora que os lesou» 29). Mais adiante, prosseguiu escrevendo que
a justiça procura-se de modo adequado só por amor à própria justiça, por respeito das vítimas, para evitar novos crimes e visando preservar o bem comum, não como a suposta descarga do próprio rancor. O perdão é precisamente o que permite buscar a justiça sem cair no círculo vicioso da vingança nem na injustiça do esquecimento. 30)
Não entramos em acordo com um adversário esquecendo nem desrespeitando a justiça porque o parâmetro desta justiça é a justiça divina que perdoa, mas que (pelo que se pode deduzir das palavras de Jesus) também não esquece. Deus perdoa por amor, e toda ijnustiça que cometemos foi paga por Jesus na Cruz. A justiça divina, que é o perdão pela Cruz de Jesus, é o sinal do tempo presente 31) que precisamos reconhecer e, além de reconhecer, é aquilo do qual precisamos nos tornar sinais, perdoando por amor, pelo amor que vem de Deus.
Mens sana in corpore marombado
22/10/2025
Talvez eu não entenda muito bem certas palavras - posso dizer de muitas delas o que Cecília Meireles diz só de uma, “liberdade”, uma palavra que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda 32): tem muitas palavras que por mais que me expliquem, não há quem me explique, nem nenhuma explicação que eu entenda.
“Frouxo”, por exemplo. Eu sei ver quando uma mesa está frouxa, e até consigo entender que no sentido comportamental ela é o contrário de “um filho teu não foge à luta” 33). Mas não preciso de uma guerra para isto: onde eu trabalho já houveram muitas oportunidades de sair no soco, e em todas elas eu, como o eu lírico do Poema em Linha Reta, me agachei para fora da possibilidade do soco 34).
Claro que se fosse o caso de alguém sofrendo uma violência, uma mulher sendo vítima de violência doméstica, ou contra crianças, etc, aí eu não daria tanto tanto peso à auto-preservação, mas até hoje não apareceu nenhuma oportunidade de testar assim, desse jeito (quer dizer, ter que recorrer à violência para interromper uma violência pior), e eu espero, sinceramente, que esta oportunidade continue sem aparecer.
Acho que além da poesia, a mistura de anti-violência, auto-preservação e medo (e eu não sei a porcentagem de cada sentimento no total) da minha postura também é corroborada por ninguém mais e ninguém menos que Deus:
Ele não se compraz com o vigor do cavalo, nem aprecia os músculos do homem 35);
Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo 36);
E é por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte 37);
e devem ter outros exemplos na Bíblia, mas não me ocorrem agora 38).
Eu espero não estar fazendo uma contra-propaganda religiosa, porque o cristianismo não dá suporte para fraqueza, covardia e passividade, mas dá suporte para que o contraponto dessas coisas sejam a fé em Deus, a confiança na força de Deus e na Providência Divina (tanto é que no salmo 146/147, o versículo seguinte ao do parágrafo acima é «Javé aprecia aqueles que o temem, aqueles que esperam por seu amor.»). Quer dizer, uma coisa é recorrer à força para ajudar a defender alguém, outra é virar um cirstão no estilo “mens sana in corpore marombado”. Eu acho mais seguro confiar em Deus como se tudo dependesse dele e agir como se tudo dependesse de mim, dentro do possível 39). E às vezes o possível é se agachar para fora da possibilidade do soco.
Tudo isso é por causa de uma reportagem do Intercept Br sobre a <a href=“https://archive.ph/LmX4i” target=“_blank”>Cultura do medo</a>, na G4 Educação, onde os “frouxos não são bem-vindos”. O cristianismo não tem nenhuma “moral da frouxidão”, mas, como eu escrevi no parágrafo anterior, faz com que o contrário da frouxidão seja a confiança em Deus mais no que a confiança “nos músculos do homem”. Mas é por isto a minha dificuldade com a palavra “frouxo”: ao mesmo tempo em que os frouxos não são bem-vindos lá, o dono afirma que “levou a igreja para dentro da empresa” (além de não contratar esquerdistas, para dar uma ideia do naipe do sujeito). Se a igreja está dentro da empresa, Cristo deve estar fora dessa igreja - logo ele que que se comportou muito mais como o Servo Sofredor de Isaías 53 40) do que como o rei vitorioso nas batalhas do salmo 23/24 (se bem que, sendo Rei de fato, Jesus foi vitorioso mesmo morrendo crucificado, mas não venceu pelos “músculos do homem”, quer fossem os seus ou os de outrem, e sim pela sua confiança no Pai, que o ressuscitou).
Não que fosse ficar mais cristão se fosse uma empresa onde “os que não confiam em Deus não são bem=vindos”, até porque lugar de igreja não é dentro de uma empresa (muito embora seja necessário ter fé em Deus <em>principalmente</em> dentro de uma empresa hoje em dia, por inúmeros motivos). Mas mesmo sem entender ainda muito bem a palavra “frouxo”, tenho certeza de que essa retórica da força só pode ser considerada cristianismo dentro desta cultura de cristianismo freestyle corporativo que dá tanto lucro para meia dúzia de ricaços às custas da degradação do Evangelho 41) .
Inferno e paz
14/10/2025
“Você vai para o inferno se não acreditar em Deus” é uma ameaça que, graças a Deus, não surte mais muito efeito hoje em dia. Mesmo quando funcionava era ruim (mas talvez ninguém percebesse isso) porque é mais ou menos como apontar uma arma na cara de alguém e tentar obrigar a vítima a acreditar em Deus. E agora é pior porque, além da ameaça, ela é irrisória, como ameaçar alguém fazendo arminha com as mãos: “acredite em Deus e também que vai sair uma bala da ponta do meu dedo indicador”.
Tem muita gente que não acredita em inferno, a ponto de Bento XVI ter que ter reafirmado a doutrina de que ele existe sim. Mas isso só serve pra quem já tem fé em Deus, quer dizer, gente que já acredita em Deus mas omite, cuidadosamente, essa parte, que é justamente sobre Deus não obrigar ninguém a acreditar nele - a ponto de permitir, às custas do seu próprio sofrimento divino, que alguém decida pelo rompimento definitivo com Deus, que é o que significa o inferno. Mas em geral, a ameaça é inócua porque ou o ameaçado já acreditava em Deus, quer acredite ou não também no inferno, ou não acredita em Deus e, se não acredita no principal, que é Deus, provavelmente não vai acreditar em detalhes como o inferno.
A questão é que se trata de escolhas definitivas, mas tem uma diferença entre escolher Deus e escolher não ir pro inferno (o que é confuso porque é meio redundante, mas escolher Deus por amor ao prṕprio Deus é diferente de escolher Deus por medo do inferno, apesar de levar a Deus também, mas só porque Deus é a única alternativa ao inferno). Só que, para além disto, a ameaça (“ou Deus ou o inferno”) não funciona também porque muita gente já conheceu (e sobreviveu) ao que considerava um inferno, e no meio de tantos sofrimentos a que estamos expostos hoje em dia, “você vai pro inferno” perde o caráter de ameaça e se parece com mais do mesmo pelo qual muita gente passou, ou ainda passa. Tem quem tente usar ainda o “mas o inferno mesmo é muito pior do que isto que você passou” como se as pessoas já não tivessem visto o que não tinha como ser pior piorar ainda mais, a despeito de parecer já o fundo do poço. Realmente o inferno é pior, mas isso só vai ter efeito com quem ama Deus e não precisa de ameaça nenhuma para isso.
Acho que nem falar em vida eterna adianta muito, porque quem acredita em vida eterna geralmente já acredita em Deus também, aí tem que convencer o outro, quando não acredita em vida eterna, que a vida eterna existe para daí Deus entrar na jogada. Não é que não seja verdade, mas na prática parece mais aquilo que a propaganda faz, que é criar uma necessidade que não existe e aí vender a solução. No fim me parece muito mais sensato falar de Deus, anunciar Jesus, que o básico do básico geralmente funciona melhor. Por mais que Paulo tenha dito que é necessário dar razões da própria fé, se for para argumentar tão mal é melhor falar da própria fé e deixar de lado a argumentação - até porque, dando razões ou não, quem converte alguém é Deus mesmo, e não os argumentos de alguém, sejam eles brilhantes ou horríveis.
Apesar de tanto inferno e vida eterna acima, isso tudo me ocorreu graças ao ceticismo com a mais recente paz em Gaza. Aliás, não é nem pelo ceticismo, mas sim pelo desdém de quem tem a certeza de que não vai durar. Esses pensamentos sobre as coisas eternas foram porque, até certo ponto não deixa de ser verdade: a paz em Gaza não vai durar. Mas isso é porque paz nenhuma aqui na terra vai durar, assim como também guerra nenhuma. Só o que vai perdurar eternamente é Deus e, por graça dele, quem entrar na vida eterna pela fé em Deus. E desdenhar de uma paz provisória (mesmo que tenha sido articulada por tanta gente ruim e por motivos ruins que nem eles) é desdenhar toda a possibilidade de paz que pode haver no mundo.
Paz nenhuma vai durar, e guerra nenhuma também não. Mas desdenhar de um alívio provisório implica em prolongar por nada um sofrimento provisório, o que é mais fácil de fazer quando o alívio ou o sofrimento é o dos outros e não o próprio, independente daquilo no que se creia ou deixe de acreditar.
Leão XIV, para além de conservador ou progressista
03/10/2025
[…] com base no tomismo, Leão XIII defendia que não caberia a Igreja Católica intervir no regime político dos estados, mas guiá-los em direção aos valores ético e morais do cristianismo. Sem contrapor a Igreja à forma de governo secular, consolidava-se as bases de criação da Doutrina Social Católica, abrindo caminho para o surgimento décadas depois do Concílio Vaticano II, em direção frontalmente oposta ao Vaticano I.
O documento que marcou o esforço de terceira via da chamada “sociologia católica” diante de um mundo polarizado entre esquerda e direita foi a Encíclica Rerum Novarum (1891), de Leão XIII. Nela, sistematiza-se as contraposições da Doutrina Social Católica em relação tanto ao modelo de sociedade capitalista quanto às alternativas socialistas e comunistas.
[…] a definição de progressista ou conservador usada para a política tradicional não serve para compreender o posicionamento político da Igreja Católica. Em alguns temas há afinidade com agendas políticas da esquerda em outros com a direita. Isso ocorre porque os valores que a Igreja disputa são os valores da modernidade e o papel da Igreja sob ela.
Texto de Le Monde Diplomatique, onde foi publicado dia 28 de maio de 2025
Maldades cristianizadas
30/09/2025
Ódio e violência, incluindo nisso tudo a vingança, não são coisas cristãs. Apesar disto, estas coisas fizeram parta da história do cristianismo, e a ideia não é renegar a presença disto nesta história, mas condenar que isso tenha havido. Mesmo que episódios como as Cruzadas e a Inquisição sejam cheios de matizes (às quais não faltam tentativas de “purificação”, em alguns casos excluindo os nuances mais semelhantes ao joio, e em outros, excluindo os nuances mais semelhantes ao trigo), não é porque o ódio e a violência (e outras coisas desse tipo) fizeram parte deles que se tornam justificáveis. Mas hoje em dia se faz algo pior do que justificá-los. Alguns cristão tentam repeti-los.
Às vezes a justificativa é a Bíblia, especialmente o Antigo Testamento interpretado ao pé da letra e isolado da elevação da Palavra de Deus à perfeição trazida por Jesus, mas até Moisés, que pela graça de Deus libertou o povo da escravidão do Faraó e fez uma breve participação especial no Novo Testamento, foi proibido de entrar na Terra Prometida porque, sendo imagem pré-figurativa de Jesus, afinal de contas não era Jesus e, portanto, também teve lá os seus vacilos diante de Deus.
Além do Antigo Testamento, eu já vi usarem o NT para justificar a violência (como quando Pedro sacou a espada para defender Jesus, ou quando o próprio Jesus disse para aranjar uma espada). Mas nesta passagem do Evangelho de Lucas 9,51-56 a descristianização do ódio e da violência está perfeitamente estampada: Tiago e João queriam evocar o fogo do céu contra a aldeia samaritana que não acolheu Jesus, e Jesus repreendeu esta ideia - mesmo sendo samaritanos que, além de não terem acolhido Jesus e seus discípulos na sua jornada rumo à Cruz e Ressurreição nesta passagem bíblica, eram inimigos viscerais dos judeus. Talvez não tenha sido à toa que no capítulo seguinte Lucas narre a parábola do Bom Samaritano.
É muito fácil, ou pelo menos é muito comum excluir da “lista das coisas cristãs” aquilo que repercute mal, sendo elas ou não coisas cristãs, quer dizer, é comum cristianizar ou descristianizar coisas conforme as conveniências do momento (e infelizmente, a cristianização forçada do ódio e da violência tem sido muito conveniente hoje em dia). Mas os interesses humanos, inclusive os mais mesquinhos, não tem a capacidade de transformar o mal no bem. Deus, pelo seu poder, consegue fazer com que as consequências de coisas más sejam boas, mas nem por isso transforma as coisas más em coisas boas, e por mais que a violência e o ódio apareçam tanto na Bíblia quanto na história do cristianismo, Jesus continua repreendendo essas maldades - já que ele consegue tirar consequências boas de nossas maldades, talvez tire consequências ainda melhores quando fizermos o bem.
Ordem e progresso
29/09/2025
Talvez o meu problema com a palavra progresso que as pessoas usam quando dizem que querem melhorar, se desenvolver, etc seja porque eu sempre desconfio que elas estão de olho em um objetivo ideal cuja irrealidade fica velada.
Eu também não sei, quase sempre, se as pessoas estão falando de um progresso espiritual, de um progresso material, de um progresso intelectual, por exemplo. Mas sempre acho que é em direção a um ideal inalcançável, e a irrealidade recalcada serve para esconder, mais embaixo ainda, que não existe limite nenhum, só um progresso infinito que, na minha opinião, vai enlouquecer o candidato a progredir porque o seu horizonte é móvel como o que se vê no mar, e vai se afastando na medida em que se vai indo em direção a ele.
É claro que isto, esta visão do progresso, talvez seja o efeito da minha tendência meio niilista de achar que não adianta ter objetivo nenhum porque um objetivo viável agora pode se tornar inviável amanhã por causa da mudança abrupta das circunstâncias e, por isso, não adianta fixar objetivo nenhum: pode ser que o objetivo das pessoas exista e seja tangível, e elas só não me contaram qual é, mas sejam mais competentes do que eu para alcançá-los.
É mais ou menos como naquela história que Jesus conta em Lucas, do rei que tem que considerar se pode enfrentar com seus dez mil soldados o outro que vem com vinte mil - se bem que acho que ele estava falando sobre não confiar nos próprios recursos e sim na graça de Deus para poder segui-lo, mas estou descontextualizando isto para ficar só com o exemplo de que ele sugeriu que o rei com dez mil soldados deveria mandar uma delegação de paz para o rei que tinha vinte mil soldados.
O que eu acabo fazendo é o que Jesus sugere ao rei dos dez mil soldados: a delegação de paz que eu costumo enviar para a poderosa instabilidade das circunstâncias é colocar objetivos simples e imediatos (que não levam necessariamente a algum progresso): chegar no horário, lavar a roupa, essas coisas.
Claro que inclusive para isso eu conto, como eu acho que era o que Jesus queria dizer naquela passagem, com a graça de Deus mais do que com os meus próprios recursos por eles mesmos. No fim das contas eu recorro a eles, mas sabendo que o que faz dar certo é a graça de Deus (o que fica mais evidente quando os meus recursos não dão conta nem desses objetivos simples e imediatos).
Apesar de tudo isso, no fim das contas, o que eu deveria fazer era perguntar para as pessoas que dizem que querem melhorar o que elas querem dizer com isso.
III Encontro Nacional da Economia de Francisco e Clara pede mudanças estruturais e justiça social
23/09/2025
Representantes de comunidades e organizações de todo o Brasil se reuniram na Universidade Católica de Pernambuco, em Recife, para o III Encontro Nacional da Economia de Francisco e Clara. Com o lema “A economia pode ser justa para todas as vidas, agora!”, o evento refletiu sobre alternativas ao modelo econômico atual, considerado injusto e predatório.
Inspirados pelo Papa Francisco, os participantes defenderam uma transformação estrutural da economia, com foco na justiça social, sustentabilidade e solidariedade. Destacaram também o papel das Casas de Francisco e Clara e encerraram com um chamado à ação movido por indignação e esperança.
Fonte: ADN Celam (em espanhol), publicada em 20 de setembro de 2025.
O tribalismo cristão
23/09/2025
Pertencer à tribo de Cristo liberta a Igreja do tribalismo e do etnocentrismo
A inculturação se degenera em etnocentrismo quando é reduzida a uma estratégia humana, desconectada do mistério da Encarnação. Os apóstolos já reconheciam e ensinavam que nenhuma cultura ou pertença étnica pode monopolizar o Evangelho nem apropriar-se da Igreja. Fonte: Agência Fides (em espanhol).
Devoção mariana e compromisso social
23/09/2025
Cidade do Vaticano, 06 set 2025 (Ecclesia) – O Papa encerrou hoje, no Vaticano, o 26.º Congresso Mariológico Mariano Internacional, ligando a devoção à Virgem Maria ao compromisso social, nas comunidades católicas:
<q>Uma piedade e uma prática marianas orientadas para o serviço da esperança e da consolação libertam do fatalismo, da superficialidade e do fundamentalismo; levam a sério todas as realidades humanas, a começar pelos últimos e pelos descartados; contribuem para dar voz e dignidade àqueles que são sacrificados nos altares dos ídolos antigos e novos”</q>
NOTAS de rodapé42)







